Os últimos dias têm sido estranhos.
Por um lado, finalmente começamos a criar algo parecido com estabilidade. Por outro, a sensação de que tudo pode desmoronar a qualquer momento nunca desaparece.
Alguns dias atrás plantei batatas nos arredores da base. Honestamente, nem achei que aquilo fosse render muita coisa. A terra aqui parece morta em vários lugares. Fria. Úmida. Abandonada junto com o resto do mundo.
Mas hoje fizemos a colheita.
E pela primeira vez em semanas, tivemos comida suficiente para realmente pensar no amanhã.
Deu bastante batata.
Passei boa parte do dia organizando tudo e congelando o máximo possível antes que estragasse. Agora sempre que saio levo algumas comigo na mochila. Não é exatamente uma refeição digna… mas mantém o corpo funcionando.
Ainda assim, às vezes fico pensando quanto tempo uma pessoa aguenta viver só disso.
Batata. Água. Silêncio. E medo.
Hoje também encontrei duas pochetes militares abandonadas em uma casa parcialmente destruída nos arredores da cidade.
Pode parecer algo pequeno, mas naquele momento senti como se tivesse encontrado ouro.
Agora consigo carregar praticamente todas minhas ferramentas sem precisar voltar para a base a todo momento. Martelo. Pregos. Faca. Pedras. Corda. Tudo preso ao corpo, pronto para uso.
No fim do mundo, praticidade vira sobrevivência.
Passei parte da manhã removendo carros abandonados de uma das ruas próximas da rota principal.
Aqueles destroços estavam atrapalhando toda vez que precisávamos atravessar aquela área. Alguns veículos ficaram presos uns nos outros formando quase uma barricada improvisada no meio da pista.
Uma vez quase morri ali.
O carro deslizou na chuva, bati em um dos veículos abandonados e por alguns segundos achei que os mortos iam alcançar a porta antes de conseguir sair.
Hoje resolvi remover o problema de vez.
Levei tempo. Barulho. Esforço.
Mas agora a passagem está livre.
Pelo menos por enquanto.
West Point continua sendo o nosso maior problema.
Toda vez que olho para aquela cidade tenho a sensação de que ela nunca acaba.
As ruas parecem produzir mortos infinitamente. Cada esquina limpa revela outras dezenas escondidas entre carros destruídos e vitrines quebradas. É como tentar esvaziar um oceano usando baldes.
Mesmo assim, estou indo novamente para o centro.
Precisamos liberar a rota até o posto de gasolina.
Hoje preparei cerca de quinze lanças improvisadas antes de sair da base. Madeira. Pedra. Fita. Tudo montado manualmente enquanto a chuva batia do lado de fora.
Ainda bem que o porta-malas do carro é grande.
Porque sei exatamente o que me espera lá.
Corredores tomados. Alarmes antigos disparando do nada. Mortos surgindo entre os prédios. Ruas apertadas sem espaço para correr.
As lanças quebram rápido demais.
Mas continuam sendo silenciosas. E silêncio ainda vale mais do que munição.
O problema é que meu carro está morrendo.
O motor está completamente destruído.
Às vezes ele simplesmente desliga no meio da rua e eu preciso rezar para conseguir ligar novamente antes que alguma horda me alcance. O capô já parece ter passado por uma guerra inteira.
E talvez tenha mesmo.
Preciso aprender mecânica logo.
Não dá mais para depender de sorte.
Se eu conseguir aprender ligação direta talvez possamos pegar um veículo melhor em algum estacionamento da cidade. Algo mais resistente. Maior. Talvez até uma van para carregar suprimentos.
Porque do jeito que está… sinto que esse carro não aguenta muito mais.
Hoje também tivemos um susto com o gerador.
Ele simplesmente apagou no meio da noite.
Por alguns segundos a base inteira ficou em silêncio absoluto. Sem luz. Sem freezer. Sem nenhum som além da chuva e do vento entrando pelas frestas da parede.
Gastamos mais um galão tentando manter tudo funcionando.
Agora restam apenas dois.
Dois galões separando nossa base da escuridão completa.
E o pior é saber que o posto de gasolina continua cercado por hordas.
Toda vez que pensamos em avançar até lá acabamos presos limpando ruas menores apenas para sobreviver ao caminho.
Mas não temos mais escolha.
Precisamos abrir espaço o quanto antes.
Hoje a DireReaven foi essencial novamente.
Passei boa parte do dia fabricando lanças para a próxima incursão em West Point e estava ficando sem pedras para as pontas improvisadas. Sem elas, não existe combate silencioso. E sem combate silencioso, aquela cidade nos engole vivos.
Enquanto eu reforçava equipamentos e organizava o carro, ela saiu sozinha para procurar material.
Voltou horas depois carregando diversas pedras.
Molhada da chuva. Cansada. Mas viva.
Pode parecer pouca coisa olhando de fora.
Mas pequenos esforços são o que ainda mantém esse lugar funcionando.
Cada pedra. Cada parede reforçada. Cada refeição improvisada. Cada rua limpa.
Tudo aqui exige esforço demais.
E talvez seja justamente isso que ainda mantém a gente humano.
Porque enquanto continuamos construindo…
Significa que ainda não desistimos.
