A chuva começou ainda antes do amanhecer.
Hoje em dia eu odeio chuva.
Antes de tudo isso, chuva era confortável. Era motivo pra ficar em casa, ouvir música, mexer no computador, esquecer o mundo um pouco.
Agora não.
Agora chuva significa lama, frio, roupa molhada…
Acordei cedo hoje e percebi que sobravam poucos recipientes com água potável.
Então comecei tudo de novo.
Encher baldes nos coletores de água.
Ferver.
Esperar.
Organizar estoque.
Repetir.
É estranho perceber como o fim do mundo destrói completamente a noção do que é uma vida normal.
Hoje em dia sobreviver é quase um trabalho de manutenção constante.
Enquanto organizava os baldes d'água, fiquei olhando a garagem da base.
Quando chegamos aqui aquilo parecia um galpão abandonado, e ainda parece um pouco.
Só piso.
Parede.
Poeira.
Nenhum armário.
Nenhuma bancada.
Nada.
Depois de alguns dias tomando coragem e tentando transformar aquele lugar em algo útil, decidi começar a construir móveis improvisados.
Prateleiras.
Gaveteiras.
Armários.
Organizei ferramentas, peças, remédios, comida...
E sinceramente?
Acho que isso ajuda a manter a sanidade.
Porque quando tudo lá fora parece morto… organizar uma oficina ainda faz a gente sentir humano.
Mais tarde decidi me aprofundar mais no centro de West Point.
Meu carro já estava praticamente condenado.
O motor desligava sozinho a cada poucos minutos e eu sabia que aquilo cedo ou tarde ia me matar no pior lugar possível.
Foi então que ao passar por algumas ruas de west point, eu vi um táxi.
Amarelo.
Bem conservado.
Abandonado no meio da rua.
E ao observar bem o carro, teve o detalhe que fez meu coração acelerar:
A chave estava na ignição.
Na mesma hora olhei ao redor.
Dezenas deles.
Talvez mais.
Zumbis espalhados pela rua, entre carros destruídos e corpos apodrecendo no asfalto.
Eu devia ter ido embora.
Mas pensei na base.
No Soneca.
Na Direreavem.
E percebi que aquele carro talvez fosse nossa melhor chance de continuar vivos.
Afinal estamos morando bem afastado do centro e precisaremos ter uma forma de encher os galões de combustível para o gerador.
Então parei o carro próximo do taxi e desci.
E eles vieram.
Todos.
Ao mesmo tempo.
Eu carregava cinco lanças nas costas.
A primeira atravessou um deles direto no peito.
A segunda quebrou.
A terceira entrou pela garganta de um morto completamente podre que ainda tentava avançar.
Depois disso tudo virou instinto.
Empurrar.
Golpear.
Respirar.
Recuar.
Sobreviver.
Quando saquei a última lança, já completamente cansado e acelerado pela adrenalina, olhei ao redor…
Todos tinham caído.
E toda vez que isso acontece eu sinto a mesma coisa.
Não é alívio.
É Estranheza.
Porque o silêncio depois da violência parece errado, afinal todos ali eram como eu, pais, filhos, avós, netos... Como o mundo ficou assim?
Então guardei a lança nas costas.
E foi aí que aconteceu.
Um deles ainda estava vivo no chão, eu não tinha percebido, o desgraçado parecia ser inteligente e ficou quietinho ali esperando eu me aproximar.
Quando me aproximei, aquela coisa levantou de repente e me agarrou com tudo.
Eu senti a dor imediatamente.
Um arranhão profundo no pescoço.
O sangue começou a escorrer quente pela roupa e naquele segundo eu achei que tinha acabado.
Não fisicamente.
Mas condenado... Estes malditos infectados...
Empurrei aquela coisa com toda força que tinha e esmaguei a cabeça dela no asfalto.
Minhas mãos tremiam.
Lembro de olhar pro sangue escorrendo pela minha mão e pensar:
"Não… não assim."
Por sorte ainda haviam bandagens na mochila, algumas tiras de roupa que a DireReavem tinha deixado na oficina. Ainda bem que peguei e levei comigo.
Fiz o curativo ali mesmo no meio da rua tentando ignorar o pensamento que desde então não sai da minha cabeça:
E se eu tiver sido infectado?
Por enquanto… estou bem.
Mas depois de um arranhão desses, a própria mente começa a virar inimiga.
Qualquer dor.
Qualquer febre.
Qualquer tontura.
Tudo parece suspeito.
Depois disso, com muita dor fui até o táxi.
A chave realmente funcionava.
Girei a ignição…
Nada.
Sem gasolina.
Na hora quase comecei a rir sozinho de nervoso.
Peguei a mangueira do carro antigo e comecei a puxar combustível pras garrafas que carrego na mochila.
Transferi tudo pro táxi.
Respirei fundo.
Girei a chave novamente.
O motor ligou.
E eu juro…
acho que fazia semanas que eu não sentia esperança daquele jeito.
O som daquele motor funcionando no meio daquele mundo morto parecia errado.
Quase bonito demais.
Peguei toda minha tralha do porta malas do meu carro e transferi para o taxi.
Em seguida voltei imediatamente para a base.
Quando os muros improvisados da base apareceram na estrada senti um alívio absurdo.
Nunca pensei que madeira velha e paredes mal construídas fossem me fazer sentir seguro algum dia.
Cheguei por volta das onze horas da manhã.
Soneca e Direreavem estavam acordados.
Mostrei o táxi pro Soneca e ele começou a analisar tudo na mesma hora.
O cara consegue olhar pra um carro destruído e enxergar potencial.
Segundo ele o motor estava em boas condições… mas os pneus precisariam de atenção logo.
Tinham algumas peças que ele não conhecia muito bem.
E nas minhas passagens pelo centro de West Point eu lembrei que havia uma livraria próxima do posto de gasolina.
Então decidimos sair juntos, com isso já abastecíamos o taxi, os galões do gerador e pegaríamos o livro para o Soneca.
Um pouco depois do meio-dia nos preparamos e saímos.
O caminho até o posto já não estava mais tão limpo.
Alguns grupos tinham migrado pra avenida principal.
Combatemos vários no caminho.
Quando liguei o gerador nas bombas e o combustível começou a correr pros galões… fiquei olhando aquilo por alguns segundos.
"Gasolina virou uma das últimas coisas que ainda mantém esse mundo funcionando."
Depois seguimos até a livraria.
E a situação lá estava feia.
Tinha muito deles...
Muito mais do que eu esperava.
Decidimos então dividir funções.
Fiquei do lado de fora protegendo a entrada enquanto Soneca e Direreavem procuravam os livros.
O principal objetivo era encontrar o manual de mecânica que o Soneca precisava pra recuperar nosso taxi.
Infelizmente não encontraram.
Mas acharam outros livros úteis.
Depois eles seguiram até um comércio ao lado que parecia um antigo consultório odontológico.
Continuei fazendo guarda na entrada enquanto eles saqueavam o local.
Foi aí que quase perdemos a Direreavem.
Eu estava distraído combatendo alguns mortos na entrada e não percebi um deles entrando pelos fundos.
Aquela coisa era enorme.
Alto.
Forte.
Parecia um animal.
Quando ouvi o grito dela meu sangue gelou.
O zumbi pegou ela pelas costas.
Direreavem conseguiu escapar porque é rápida pra caramba… mas levou um arranhão severo no pescoço.
Na hora que vi o sangue escorrendo senti um vazio horrível no estômago.
Porque eu sabia exatamente o que passa na cabeça depois disso.
Soneca avançou com um pé de cabra e destruiu o crânio da criatura antes que ela conseguisse atacar novamente.
Direreavem fez o curativo.
Tentou agir normalmente depois.
Mas eu percebia ela colocando a mão no pescoço toda hora.
E acho que ela percebeu que eu fazia o mesmo escondido.
Nenhum de nós comentou sobre isso na volta.
Talvez porque ninguém teve coragem.
Voltamos pra base antes do anoitecer.
Guardamos tudo em silêncio.
O clima estava estranho naquela noite.
Ninguém falou muito.
Só o som da chuva lá fora… e aquele medo silencioso que ninguém queria admitir.
No dia seguinte decidimos tentar outra alternativa.
Como não encontramos o livro de mecânica, resolvemos colocar o taxi a prova e ir até Muldraugh procurar VHS educativos numa antiga locadora.
Talvez existisse alguma fita ensinando manutenção avançada.
Era arriscado, mas o Soneca é um bom mecânico, pelo que conheço ele e a analise que fez do taxi, estávamos bem de mecânica, só os pneus que me preocupavam.
Logo cedo eu e Soneca pegamos a estrada.
A rodovia parecia um cemitério infinito.
Centenas de carros abandonados.
Portas abertas.
Malas espalhadas.
Sangue seco no asfalto.
Às vezes eu olho pra esses carros e fico imaginando como foram os últimos minutos dessas pessoas.
Famílias tentando fugir.
Gente presa no trânsito.
Pânico.
Desespero.
Morte.
Tivemos que manobrar lentamente entre os veículos enquanto hordas caminhavam entre as pistas.
Atropelamos vários zumbis no caminho e o táxi acabou sofrendo alguns danos.
Quando finalmente chegamos perto da locadora…
Entendemos que tinha sido um erro.
Aquilo estava tomado.
Talvez duzentos deles.
Talvez mais.
Mesmo assim, decidimos tentar, gastamos muito combustível no caminho até Muldraugh.
Encontrei um espaço com um pouco menos deles, encostei o carro, descemos e começamos a lutar.
Mas logo ficou óbvio:
Não existia quantidade suficiente de lanças naquele mundo pra derrubar aquela horda.
Soneca derrubou dezenas deles eu mais dezenas, mas eles não paravam de surgir, quebravam janelas, vinham das árvores, foi um terror.
Então improvisamos.
Soneca começou a puxar parte da horda pra longe aos gritos enquanto eu circulava abaixado entre os carros tentando voltar furtivamente pro táxi.
Quase consegui.
Quase...
Mas um deles me viu no último segundo.
Aquela coisa avançou em mim e por um momento achei que ia morrer esmagado no meio da multidão.
Consegui escapar por pouco, me joguei dentro do carro e dei partida imediatamente.
Dirigi direto até o Soneca.
Ele entrou correndo completamente desesperado.
E demos nó pé, acelerei fundo e fomos embora daquele lugar.
Sem olhar pra trás.
Perdemos tempo.
Perdemos combustível.
Mas ainda estamos vivos.
E nesse mundo…
isso já parece lucro.
Enquanto tudo isso acontecia, Direreavem ficou na base pescando.
Nossas reservas de peixe estavam acabando e apesar das batatas ainda sustentarem bastante coisa… proteína virou algo precioso demais.
Durante a pescaria um peixe enorme mordeu a linha dela.
A vara quebrou na hora.
Ela voltou pra base e conseguiu reparar tudo usando materiais que tínhamos guardado anteriormente.
Mais uma vez sobrevivendo com restos.
Improvisando.
Persistindo.
É estranho pensar nisso tudo.
Antes do apocalipse, problemas eram trabalho, contas, trânsito…
Agora a gente comemora porque conseguiu ferver água.
Porque um carro ligou.
Porque ninguém morreu hoje.
E talvez seja exatamente isso que mais me assusta.
O ser humano consegue se acostumar com qualquer inferno.
